Ontem foi aniversário da minha cidade natal, Bauru. São 114 anos. Pouco ou quase nada para ser comemorado nesta data, apesar de alguns dizerem o contrário. Mas a verdade é que a cidade vem há muito tempo abandonada pelo poder público. É um viaduto que leva nada a lugar nenhum. Um ex-prefeito preso. É a falta de asfalto em ruas antes asfaltadas. É a compra de uma estação ferroviária sem ter dinheiro para pagar. Lixo nas ruas, descaso do poder público e da população sem educação nenhuma. Veja por exemplo, os problemas no trânsito da cidade. Chego a duvidar, muitas vezes, se os carros que circulam em Bauru possuem ao menos seta, já que seu uso é totalmente descartado.
Todos esses problemas não são de total culpa da atual administração. São problemas que estão sendo acumulados ao longos das últimas (pelo menos) 4 administrações. Sou totalmente apartidário e não tenho nenhuma relação com a política. Sou apenas um cidadão que tenta buscar o mínimo de justiça em um mundo totalmente político.
Para finalizar a lista dos problemas que a cidade possui, cito sua presença online. Bauru nunca teve uma presença muito ativa na internet. Quando o atual prefeito foi eleito, criou twitter para ele e para a prefeitura, além de estar presente no facebook e desde então vem mantendo um contato mais próximo com os cidadãos virtuais. Um ganho enorme se comparado com as administrações anteriores.
Porém, no mundo virtual, nem tudo são flores. Na quinta-feira passada, durante um evento com a participação de quase todos os secretários da cidade, o prefeito apresentou o novo site da administração pública. O site foi desenvolvido pela equipe de Tecnologia da Informação do setor de Informática da prefeitura. Resultado? Um site pior e mais feio que o antigo. Como conseguiram esta façanha?
Analisando o site antigo e o atual é possível notarmos, ao menos, um ponto em comum: nenhum dos dois tinham qualquer preparo para atender ao público com necessidades especiais, como é o caso de pessoas com deficiência visual (parcial ou cegueira total).
Já falei sobre este assunto em “Acessibilidade de deficientes físicos à Internet” e “Portal Brasil – O quase site de R$ 11 milhões” e retomo este assunto que por fazer parte do meu trabalho de conclusão de curso. O que mais me deixa indignado nestes casos é que novamente o poder público se sente no direito de não cumprir com o que determina a lei, lei esta que foi criada e aprovada pelo próprio poder público.
Segundo a Lei de Acessibilidade através do Decreto de Lei nº 5296, de 2 de dezembro de 2004, no artigo 47 determina que “no prazo de até doze meses a contar da data de publicação deste Decreto, será obrigatória a acessibilidade nos portais e sítios eletrônicos da administração pública na rede mundial de computadores (internet), para o uso das pessoas portadoras de deficiência visual, garantindo-lhes o pleno acesso às informações disponíveis” (DECRETO Nº 5.296 DE 2 DE DEZEMBRO DE 2004. Disponível em <http://www6.senado.gov.br/legislacao/ListaPublicacoes.action?id=240147>).
Na teoria a lei é linda, mas e na prática?
Segundo o especialista em usabilidade na internet, “os problemas de acessibilidade mais sérios, dado o atual estado da Web, relacionam-se a usuários cegos e a usuários com outras deficiências visuais, posto que a maioria das páginas da Web é altamente visual. Por exemplo, é bastante comum ver combinações de cores de primeiro e segundo plano que tornam as páginas praticamente ilegíveis a usuários daltônicos.” (NIELSEN, Jakob. Projetando Websites – Rio de Janeiro: Campus, 2000).
Abaixo segue a comparação visual entre os dois sites.
Nota-se que ambos são horríveis e não possuem o mínimo de preocupação visual, ou conhecimento técnico para o desenvolvimento do site. Como este assunto é amplo e pode se estender com muita facilidade, não me apegarei a questões relacionadas ao design do site. O foco deste artigo é a acessibilidade do site.

O governo federal, após a lei supracitada entrar em vigor, desenvolveu o e-MAG (Modelo de Acessibilidade de Governo Eletrônico) que “consiste em um conjunto de recomendações a ser considerado para que o processo de acessibilidade dos sítios e portais do governo brasileiro seja conduzido de forma padronizada e de fácil implementação.”
Dentro do site do e-MAG é possível baixar o arquivo em PDF com conteúdo específico para os programadores.
Já no site do Ministério da Educação, o RENAPI (Rede de Pesquisa e Inovação em Tecnologias Digitais) são disponibilizados algumas documentações para facilitar e melhorar a acessibilidade dos usuários com deficiência visual. O site inclusive disponibiliza algumas ferramentas para verificar se o site testado está obedecendo as recomendações de acessibilidade.
Dentre as indicações divulgadas pelo RENAPI está o site DaSilva, cuja ferramenta gera relatórios de acessibilidades aos sites testados. No site é possível ainda escolher qual tipo de regra de acessibilidade será analisada: WCAG1 ou E-GOV.
A WCAG1 é uma documentação desenvolvida por um consórcio internacional denominado W3C. A versão 1.0 do relatório é antiga e já foi substituída pelo WCAG2.0.
O engraçado nesta história é que o próprio site de Bauru possui um link a um documento desenvolvido pelo Cepam (Fundação Prefeito Faria Lima) sobre a Acessibilidade nos Municípios, onde na página 162 está o capítulo: “Acessibilidade nos portais ou sítios eletrônicos” com a lei de acessibilidade.
Para começar a análise sobre o site de Bauru, realizei 2 testes no site DaSilva: na versão antiga e nova do site utilizando-se as regras do Governo Federal (e-GOV). A página testada foi a home. Abaixo o resultado:

O Resultado é dividico em 3 níveis de prioridade, sendo a prioridade 1 a mais simples de ser implantada e a 3 a mais complexa. Quanto mais prioridades o site consegue atingir, melhor é a acessibilidade dele.
Inexplicavelmente o site novo possui zilhões de vezes mais erros que o site antigo – algo que não deveria acontecer de forma alguma. Apenas na prioridade 1 existem 31 erros graves e 462 avisos (sugestões de melhorias).
Vamos então ver quais são os erros que o novo site possui com relação à acessibilidade.
Textos
1. Grande parte dos deficientes visuais utilizam a internet através de programas leitores de tela, ou seja, o programa lê para o usuário todos os textos presentes na tela, e desta forma, o usuário constrói mentalmente o site e pode fazer as escolhas de links e ações. O grande problema é quando o site não possui indicações em texto das imagens presentes no layout. Por exemplo, todas as fotos representativas do site devem ter alternativas de texto explicando qual é o conteúdo da foto. Essas alternativas de textos são geradas através do comando “ALT” ou “LONGDESC” do HTML. Nenhuma imagem do site de Bauru possui quaisquer alternativas de texto.
2. O tamanho da fonte utilizada no menu e nas descrições do menu são minúsculas e impossibilitam/dificultam a leitura dos textos por pessoas com algum grau de perda de visão. Além do tamanho do texto, a forma como esse tamanho é definido junto ao código fonte é errado. Ele foi definido através de unidade exata com tamanho de fonte de 11 pixels, onde o correto seria definir o texto utilizando-se de unidade relativa, como “em”, “ex” ou “percentagem”
3. “Muitos usuários têm dificuldade com movimentos detalhados do mouse e podem também ter problemas em pressionar várias teclas simultaneamente. A maioria dessas questões deve ser tratada por um melhor design de browser e não deve preocupar os designers de conteúdo, exceto no que tange ao conselho de não criar imagemaps que exijam o posicionamente extremamente preciso do mouse. Imagine que você tenha de deslocar seu mouse com os pés: leva muito tempo para chegar a um alvo pequeno.” NIELSEN, Jakob. Projetando Websites – Rio de Janeiro: Campus, 2000 - p. 309
Menu de Acessibilidade
Outro ponto importante para ampliar a acessibilidade de um site é tornar possível algumas ações específicas no site e que facilitem a navegação do usuário deficiente. Esse menu de acessibilidade conta com:
1. Botões para ampliar e reduzir os textos – Este recurso já existe na versão nova do site, porém não funciona em todos os navegadores e nem mesmo está presente em todas as páginas. Testei o recurso utilizando os navegadores Firefox 3.6.8, Google Chrome 5.0 e Internet Explorer 8, este último foi o único em que o recurso funcionou (e mais ou menos, as vezes não respondia ao comando de ampliar a fonte).

2. Contraste – É possível desta forma aumentar o contraste entre o texto e o fundo. Geralmente ele coloca o fundo da tela em preto e o texto em branco. Este recurso é importante para evitar que textos muito conflitantes com o fundo se tornem ilegíveis. Não notei no site de Bauru problemas com as cores de texto e fundo, mas o recurso continua sendo importante e deve fazer parte do site.
3. Ir ao conteúdo – Ao fazer uso de um leitor de tela, se torna demorado e penoso ao usuário ter que ouvir o software ler, a cada página acessada, todas as informações existentes nas páginas anteriores, como é o caso do menu. O link “Ir ao conteúdo” solucionaria este problema, já que ao clicar no botão, o leitor de telas pularia a leitura para o conteúdo da página, ignorando todos os textos anteriores e repetitivos.
4. Teclas de atalhos – indispensável ao deficiente que utiliza o teclado para navegar pelos sites.
Resumidamente, são estes os maiores problemas do site. Existem muitos outros recursos que podem facilitar a navegação de usuários com necessidades especiais e, principalmente, os deficientes visuais. São recursos simples e que não oneram o projeto final.
Espero que a prefeitura efetue estas mudanças (e quem sabe, com um novo layout – afinal não custa sonhar).
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Abraços…
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Gostei da sua observação em relação aos deficientes visuais.
Tenho uma amiga muito próxima que é deficiente visual e estamos fazendo um levantamento das principais necessidades desta classe de pessoas para fazermos um projeto aqui em Bauru para melhorar a qualidade de vida deles.
Gostaria muito de contar com sua ajuda e experiencia nesta área.
Grande abraço…..vamos levantar esta bandeira…. pelo menos isto….